Tenho adquirido um hábito curioso: discutir seriamente com a inteligência artificial. Não digo usar o ChatGPT para melhorar um e-mail, resumir um contrato ou descobrir onde fica um botão escondido no Revit. Digo discutir de verdade. Apresentar uma tese, pedir que ele a ataque, discordar, exigir evidência, acrescentar o que vejo na prática e insistir até descobrir se o argumento sobrevive ou se eu estava apenas defendendo uma opinião porque, afinal, era minha.
Aliás, tenho curiosidade para saber quantas pessoas fazem isso. Você também briga com a IA? Tenta convencê-la das suas teses? Manda pesquisar novamente quando a resposta parece excessivamente educada? Porque existe algo divertido em perceber que você está há quarenta minutos discutindo com uma máquina e, pior, começando a suspeitar que ela tem razão em parte do argumento.
Foi numa dessas discussões que coloquei uma questão sobre a mesa: o Brasil perde para Europa e Estados Unidos em BIM? Minha primeira tendência era defender que não. Temos excelentes profissionais, softwares idênticos, modeladores muito competentes, bons coordenadores e empresas brasileiras capazes de entregar trabalhos tecnicamente comparáveis aos realizados fora daqui. Se você colocar uma excelente equipe brasileira e uma excelente equipe americana diante da mesma nuvem de pontos, do mesmo escopo e dos mesmos requisitos, não vejo razão para presumir que o passaporte decidirá quem produzirá o melhor modelo.
Só que essa comparação é confortável demais. Estamos comparando os melhores profissionais, quando a pergunta deveria ser sobre o sistema. Foi aí que nossa conversa ficou mais interessante: talvez o Brasil não perca tanto na capacidade de modelar. Talvez perca na capacidade de transformar BIM em processo construtivo.
E resolvi então testar essa tese com perguntas menos acadêmicas.
A primeira delas foi quase uma maldade: e aquelas enciclopédias BIM que produzimos antes de determinados projetos? Aqueles BIM Mandates, manuais, planos, anexos, tabelas, matrizes, nomenclaturas, níveis de informação, fluxos, responsabilidades e mais algumas dezenas de páginas que provavelmente exigem um BIM Manager apenas para localizar o capítulo correto? Lá fora também fazem isso? E, principalmente, alguém segue aquilo?
A resposta foi incômoda porque sim: mercados maduros também produzem documentação extensa. O Reino Unido, por exemplo, não abandonou requisitos; fez praticamente o contrário. O seu Information Management Mandate exige definição de requisitos organizacionais, requisitos do projeto, requisitos do ativo e requisitos de troca de informação. A ISO 19650 também colocou uma estrutura bastante formal sobre gestão da informação. Nos Estados Unidos, o NBIMS-US V4 trabalha com Project BIM Requirements e BIM Execution Plans. Portanto, a tese de que “lá fora é tudo simples e aqui inventamos burocracia” não se sustenta.
Eles também documentam bastante. A diferença que comecei a enxergar é outra: o documento precisa existir para comandar o projeto, e não para provar que existe um processo BIM. O próprio UK BIM Framework alerta contra simplesmente citar uma estrutura ou norma de forma genérica; os requisitos precisam ser definidos especificamente para aquela contratação. Isso é muito diferente de pegar o manual BIM corporativo, trocar o logotipo da capa e entregar ao fornecedor uma espécie de Antiga Enciclopédia Barsa Digital da Engenharia, com 186 páginas que serão solenemente depositadas numa pasta do Teams para nunca mais serem perturbadas.
Esse talvez seja um ponto em que deveríamos ser um pouco mais ácidos conosco. Um bom BIM Mandate não é necessariamente aquele que contém tudo. É aquele que consegue fazer as pessoas executarem aquilo que contém. Se o documento determina uma convenção de nomes e metade dos arquivos não segue a convenção; estabelece responsabilidades que ninguém cobra; exige propriedades que depois ninguém utiliza; define um processo de aprovação que na prática acontece pelo WhatsApp; e descreve um CDE impecável enquanto a versão “FINAL_AGORA_VAI_07.rvt” circula por e-mail, o problema não é falta de documentação. Talvez seja justamente o contrário: produzimos uma quantidade tão majestosa de documentação que começamos a confundir escrever o processo com executar o processo. A Barsa está perfeita. Só ninguém abriu depois da reunião de kickoff.
Minha segunda pergunta foi mais próxima daquilo que encontro todos os dias: quando o projeto envolve uma edificação ou instalação existente, americanos e europeus utilizam mais laser scanning do que nós ou também fazem BIM sobre aquela planta de 1997 que alguém encontrou num arquivo chamado “AS BUILT FINAL”? Aqui prefiro não inventar estatística. Não encontrei uma base séria que permita dizer que determinado país escaneia duas, três ou cinco vezes mais que o Brasil. Quem apresentar esse número com muita segurança provavelmente está medindo a própria imaginação. Mas existe um indicador mais interessante: a captura do existente está institucionalizada há bastante tempo em referências americanas de BIM.
A GSA possui inclusive um guia específico para 3D laser scanning e trata a tecnologia como recurso para documentação as-built e as-constructed. O BIM Execution Planning Guide desenvolvido em Penn State descreve “Capture Existing Conditions” como um uso BIM que pode empregar laser scanning, levantamento convencional e nuvens de pontos. E diretrizes governamentais recentes de Massachusetts tratam explicitamente laser scanning como método para produzir condições existentes geometricamente confiáveis antes da geração do BIM. Ou seja: não é apenas uma tecnologia que alguma empresa resolveu comprar; existe um lugar formal para ela dentro do processo.
E esse assunto deveria gerar uma discussão séria no Brasil, especialmente em retrofit e indústria. Porque existe algo conceitualmente estranho em gastar centenas ou milhares de horas produzindo um modelo BIM sofisticado sobre uma base cuja precisão ninguém consegue defender. Fazemos famílias, parâmetros, classificação, interferências, documentação, extração de quantitativos e depois descobrimos que a parede estava vinte centímetros para o lado, que a tubulação foi modificada em campo oito anos atrás ou que o equipamento indicado no desenho foi substituído durante uma parada de manutenção.
Conseguimos então uma façanha admirável: um modelo digital extremamente preciso de uma realidade que não existe. É o famoso BIM com cinco casas decimais construído sobre uma planta que alguém escaneou em PDF. Para ativos existentes, talvez maturidade BIM comece antes do Revit. Começa perguntando se conhecemos a realidade física sobre a qual estamos prestes a projetar.
Isso me levou à terceira pergunta, que talvez seja a mais importante: o BIM chega à obra ou fica confortavelmente instalado no escritório de arquitetura e engenharia? Porque há um tipo muito peculiar de transformação digital em que o projetista trabalha durante meses dentro de um ambiente tridimensional, coordena disciplinas, resolve interferências e organiza informação; então chega a hora de construir e alguém imprime um A1. O modelo, depois de cumprir uma carreira brilhante na engenharia, é aposentado prematuramente justamente quando começam a aparecer caminhões, montadores, encarregados, planejamento, fabricação e execução. É como treinar um atleta durante quatro anos para deixá-lo assistindo às Olimpíadas da arquibancada.
Quando fui verificar o que os padrões americanos consideram usos BIM, a resposta foi bastante objetiva. O NBIMS-US V4 inclui usos como Coordinate Design and Construction, Sequence Construction, geração de detalhes para fabricação e documentação de construção. O guia de planejamento BIM de Penn State inclui ainda planejamento de utilização do canteiro, conectando modelo, cronograma, instalações temporárias, áreas de montagem, entregas de materiais e equipamentos. Isso não significa, evidentemente, que toda obra americana funcione como uma propaganda de software. Não funciona. Existem projetos ruins, processos fragmentados e construtoras em diferentes níveis de maturidade em qualquer país. Mas o conceito de BIM mais maduro já atravessou há muito tempo a porta do escritório: o modelo deve apoiar construtibilidade, sequenciamento, fabricação, planejamento e posteriormente operação.
Talvez esteja justamente aí a pergunta que deveríamos fazer para avaliar maturidade BIM. Não me mostre apenas o modelo. Mostre-me quem o utiliza. O projetista utiliza? Ótimo. O coordenador utiliza? Natural. E o planejamento? E a obra? E quem fabrica? E quem instala? E quem mede avanço? E quem comissiona? E, depois que todas as pessoas interessantes tiraram a foto da inauguração e foram embora, quem opera aquele ativo pelos próximos vinte anos consegue extrair alguma coisa útil dali? O Reino Unido, por exemplo, passou a tratar BIM explicitamente dentro de uma lógica de gestão da informação ao longo do ciclo de vida. Seu mandato atual fala em requisitos não apenas para projeto e construção, mas para o ativo e sua operação, justamente porque informação que morre na entrega perde uma enorme parcela de seu valor.
Foi depois dessas três perguntas que minha posição mudou um pouco. Continuo não acreditando que o Brasil esteja dramaticamente atrás em capacidade técnica individual. Temos gente muito boa. Mas passei a achar que estamos, sim, atrás em algo menos glamouroso e provavelmente mais importante: disciplina de processo. Mercados mais maduros parecem ter avançado mais na transformação de BIM de uma competência do projetista para uma competência do empreendimento. Requisito nasce mais cedo, informação tem uso definido, captura do existente possui lugar dentro da metodologia, modelos possuem aplicações ligadas à construção e há uma preocupação maior em não deixar a informação morrer no final do projeto.
Talvez, portanto, a pergunta “quem modela melhor?” seja quase irrelevante. A pergunta realmente desagradável é outra: quem consegue extrair mais decisões úteis de um modelo ao longo de todo o empreendimento? Porque BIM não deveria ser uma competição de quem produz o RVT mais pesado, nem de quem escreve o BIM Mandate mais impressionante. Se fosse assim, provavelmente já seríamos uma potência mundial. Temos extraordinária capacidade de produzir documentos enormes. BIM deveria reduzir incerteza, evitar retrabalho, antecipar conflito, melhorar planejamento, registrar o construído e produzir informação que continue tendo valor depois que a equipe de projeto deixou o prédio.
E talvez esse seja o resultado mais interessante da discussão que tive com o ChatGPT. Comecei tentando convencê-lo de que o Brasil não perdia para ninguém em BIM. Terminei ainda convencido da qualidade dos nossos profissionais, mas muito menos convencido da maturidade do nosso processo. O que, aliás, é uma distinção importante. Não precisamos necessariamente de modeladores melhores. Talvez precisemos de clientes melhores em especificar, equipes melhores em cumprir e empresas melhores em utilizar aquilo que já sabem produzir.
E faço novamente a pergunta que começou tudo: vocês também discutem seriamente com a inteligência artificial? Tentam convencê-la de suas teses, mandam procurar os furos e ficam genuinamente irritados quando ela volta com um argumento melhor?
Tenho recomendado.

